terça-feira, 27 de agosto de 2013

Opinião, quer mesmo?



Almada Negreiros, Auto-retrato com o grupo da Brasileira, 1925

Nunca peço opinião sobre o que eu faço. Eu fiz tá feito. Se eu expus foi por que eu gostei, e está bem que eu seja a primeira pessoa a gostar do que fiz, afinal de nada me serve a opinião alheia me lambuzando de elogios se eu continuo me reprovando.  Esse é o tipo de sentimento agridoce que já experimentei muitas vezes, e só reforçou a minha conduta de não ceder às tentações da bajulação.
Porém, há pessoas que só aceitam a si mesmas depois da aceitação pública. E, esse tipo de pessoa sempre me mete em saias justíssimas, do tipo que me paralisa as pernas.  Eu minto o meu melhor, afinal de que valeria a vida sem amigos?

Mas, às vezes sinto que a convivência seria mais fácil se as pessoas não pedissem minha opinião, especialmente quando se trata de arte, coisa que para mim dispensa qualquer pergunta. A arte fala por si só, e a resposta vem no encalço. Sinceramente não acho que alguém seja juiz supremo no ofício de julgar a arte alheia. Há coisas que me deixam maravilhada, e há coisas que não me dizem nada, e isso é extremamente particular. E, o que não me diz nada, por ex. Romero Brito, diz tudo para muita gente. E, vai que num começo de carreira ele tivesse me encontrado e me perguntando sobre o que eu achava daquele monte de cubinhos, pós-cubismo, coloridos de maneira infantil? Minha resposta seria “na sua idade eu tentaria algo mais profundo”. Digamos que ele tivesse acatado meu conselho como veredicto, e passasse a buscar a tal profundidade da qual falei sem nunca encontra-la? Hoje ele seria pobre e frustrado, por minha culpa.

Eu não sei o que é bom, ou certo, para os outros, só sei que tem gosto pra tudo. E detesto me sentir coagida a elogiar pelo simples fato de que ninguém pede crítica. Me sinto quase ofendida por isso, por que sei que a amizade entra nesse contexto, e disto ela pode sair fortalecida, ou abalada. Até mesmo acabar, coisa que já me aconteceu.

Recentemente o que eu mais temia me aconteceu: uma pessoa resolveu pedir minha opinião sobre suas músicas recentes. A minha vontade é a de dizer “não mostre isso nem a um surdo!”, e completar com “tu deveria se ouvir mais pra lembrar da sensação de fazer algo que presta”, porém não é assim que a coisa funciona, e eu hei de me agarrar a uma qualidade qualquer e garantir-lhe mais uma boa noite de sono.  – o irônico disso é que eu lhe dei um exemplar do meu último livro quase sob juramento de que ele jamais faria comigo qualquer comentário a respeito da obra. Nem crítica, nem elogio. Pois, nada mudaria o fato de que aquilo já era algo consumado, e a opinião dele em nada acrescentaria.
Ah, se ele tivesse entendido!

domingo, 16 de junho de 2013

Se baixar o preço da passagem baixar a tua indignação acaba?



Ontem eu decidi me interessar pela opinião das pessoas e dei aquela passada geral, li post por post, até opinei (logo me arrependi), e concluí que continuo incerta a respeito do quanto o preço da passagem me afeta.  Comentei também que a gente não deveria ficar nessa de “luta” SÓ pelo preço da passagem, e concordo que não devemos desprezar o engajamento burguês daqueles que têm carro e não usariam um ônibus nem que lhe pagassem a passagem, mas estão nas ruas do lado dos menos favorecidos.

As grandes revoluções começaram por intelectuais da classe alta, artistas, pensadores, burgueses, inventores. Che Guevara é um grande exemplo disso. Enfim, a classe mais favorecida se posicionou, pela aventura ou pela ingenuidade idealística, mas arregaçou as mangas, discordou do governo limítrofe, e foi à baila dando o seu bem maior, a vida, por uma causa, tal qual Gerda Taro e tantos outros espírtos inquietos.
E há muito que não se via, ao menos no Brasil, esse desejo passional por mudanças. Fico mais feliz, e agradecida, pelo fato de que a minha timeline não está mais poluída por fotos babacas do que comeram, do que vestiram ou como estão gastando seu pseudo-rico dinheirinho à beira de piscinas, mas trocaram suas futilidades por matérias relacionadas às manifestações e por discussões menos superficiais. Porém, um fantasma me assombra: será isso o hype do momento, ou as pessoas estão mesmo sentindo que é hora de acordar, de ser menos passivas em relação às decisões superiores que nos afetam diretamente onde mais dói, o bolso? 


Digo isso por puro ceticismo, por não acreditar em engajamento de Facebook, essa vitrine onde as pessoas querem mostrar uma imagem que geralmente não condiz com suas verdades mais íntimas.
Porém, pra mim o buraco é mais embaixo. Eu gostaria que o brasileiro se revoltasse por pagar tão caro por tudo que precisa, ou deseja, enquanto recebe um salário tão inferior aos seus anseios. O governo incentiva a desigualdade social, e o melhor exemplo disso é a nova classe média e suas ostentações clássicas de emergente. O brasileiro de classe média é o pior, em minha opinião, por que é alienado, ostensivo e consumidor imediato de cultura de massas. Se num momento ele está contando vantagem por um produto importado que acabou de pagar três mil reais, no segundo seguinte ele está tomado pela paixão do momento e vomita discursos terceirizados sobre igualdade de direitos, preços justos e respeito ao próximo. Esse cidadão é o mesmo que dá carteirada em porta de balada dizendo que TEM DINHEIRO para estar ali e quer que os funcionários locais se comportem como empregados particulares dele, que o bajulem e que aguentem suas piadinhas infames.

Lembrei-me também do meu idealismo estudantil nos anos 90, época que cheguei ao Brasil e que logo depois eu pude presenciar um momento histórico, o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. Juntos dos meus, eu criei o primeiro Grêmio Estudantil da minha escola, comecei como diretora cultural e terminei como presidente. Eu era ativa e ativista. A gente protestava por tudo, era uma sensação de que nós fazíamos a diferença enquanto os adultos já haviam estacionado o cérebro.  Eu acreditava no futuro da nação através da educação. E, fui feliz na minha ingenuidade por muito tempo. Tive bons professores também, e sempre estudei em escola pública. No Paraná, repito isso era possível. Acho que peguei a última fase respeitável do idealismo paranaense, do desejo de mudança com consistência e não objetivos aleatórios que para cada protestante representava uma causa distinta a que estava proposta como tema.  E pensei do fundo do meu desencanto com o Brasil, que eu me acovardei com os demais covardes, e calei-me há muito tempo. Minha última tentativa foi a Marcha das Vadias, que por um lado me enche de alegria ao ver que as mulheres continuam indo pras ruas exigir respeito por seus corpos e seus direitos humanos, mas por outro lado me amargou o fascismo feminista que me condenou, a mim e minha parceira, por que não éramos parte do grupo, mas ousamos chamar tamanha atenção. – alí morreu o resto do meu idealismo. Não luto mais por causa alguma que não represente meu egoísmo eremita. E só iria pras ruas o dia que o brasileiro se conscientizasse de que ele é roubado diariamente na sua dignidade. Não só na passagem do ônibus, mas na qualidade do transporte, na educação inacessível que finda tantos sonhos após o colegial, no imposto que ele não sabe exatamente pra onde vai nem pra que serve por que as ruas continuam perigosas, por que os menores assassinos continuam protegidos pela lei e soltos nas ruas, pois todo assassino sempre volta a matar se tiver a chance. Por que os presídios não oferecem programas de incentivo à cidadania, ao contrário, quem sai de lá já sabe que vai voltar ao crime por que não vê alternativa.

E a saúde no Brasil... O que é isso, exatamente, um decreto do governo de que quem recebe um salário mínimo não merece viver? Aí, eu me pergunto: o que mudaria na minha vida se esses vinte centavos fossem reduzidos da passagem? Comparado a essa desigualdade estratosférica, porém admitida, nada.  Desculpem-me a honestidade. Nada mesmo. Esse país precisa de um RESET urgente, e se a passagem for só o começo, eu choro de emoção, mas se ficar nisso eu penso seriamente em fazer o que já fiz antes, morar num  país mais desenvolvido. Abandonar a pátria que me acolheu aos nove anos, que tanto amei que me esforcei pra falar a sua língua, e não apenas isso, eu sempre gritei pela brasilidade, pela valorização do idioma, dos grandes nomes nacionais, da sua literatura, da sua história. Eu, paraguaia, amei esse país a contorcer-me o estômago e travar-me a garganta para sufocar o choro daquele que ama e não é correspondido.  Mas vai-se o tempo, e a ingenuidade foi morta a pauladas de realidade.

L’enchatement c’est mort. - ainda que amanhã eu estarei nas ruas também.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Paranoia, sempre ela.




Já foi. Mas, eu vou ficar aqui remoendo cada letra que formou aquela palavra que deve ter passado a impressão contrária à minha intenção, a mensagem errada.  A contradição!

(Copo vazio, Tamara de lempicka )
Em raros momentos de autoconsolo, eu reforço pensamentos em voz alta: deu tudo certo, mas o certo me parece errado. Não sei por que, também não sei por que não consigo me desligar do que já foi se já aconteceu e nada mais posso fazer pra mudar. Mas, aaaaaaaahhhhhhhh, como eu queria poder mudar, voltar no tempo, naquelas duas linhas que estragaram tudo. Mas, poder eu não tenho, especialmente sobre meu sangue quente. E naquele momento, aquelas palavras... O que ele esperava exatamente, depois de tudo?

Volto a pensar naquele e-mail, por que eu insisto em me sentir incrivelmente  lúcida quando bebo, por que eu escrevi aquilo tudo se duas linhas resumiriam o meu fracasso com alguma dignidade? Por que eu nunca resisto ao impulso da auto revelação?

Aquele maldito e-mail... Ele vai ficar passando na minha cabeça, palavra por palavra, e a cada passada eu vou encontrar uma falha nova. A brecha que dei e não pretendia se sóbria respondesse.  E quando eu estiver no meio dos amigos falando sobre política, sexo e cães da raça Schnauzer, eu também vou lembrar que não deveria ter escrito aquilo, não daquele jeito. Por semanas vou mastigar a comida com aquelas palavras, e na certa ignorada que receberei, esta será a lembrança que mais vai participar dnas minhas noites solitárias dos meses seguintes, afinal basta estar só para se ver na pior companhia. A paranoia, sempre ela. Nunca me deixou, e eu até deveria algum respeito a ela pelo companheirismo, mas daí entra as convenções. Gente paranoica não merece respeito de quem sabe disfarçar melhor seus fracassos, ou pelo menos aceitar sem tanta autocomiseração.

Mesmo assim eu sinto pena de mim por haver escrito aquele e-mail revelador do meu ego ferido, por o que coração já nem existia àquela altura, foi estraçalhado milhas atrás num choque fatal entre a fantasia e a realidade.

Agora vou continuar enrolando feixes de cabelo no dedo enquanto olho pro além, incansavelmente. Depois vou atrás de um trago, de estranhos dispostos a gostar de qualquer coisa que também pode ser eu, vou longe até me afastar de mim. Eu ando me chateando demais.


terça-feira, 4 de junho de 2013

Dividir a conta é um direito ou um dever?



– Tem diferença, vamos falar francamente sobre isso?
Fiz essa proposta a um rapaz que exigia, com deboche, que as suas conquistas dividissem as contas, e se vangloriava disso dizendo que não sustentava “vagabunda interesseira”. Chocada, eu quis saber “nem num primeiro encontro, tipo: tu chamas a guria pra sair por que acha ela gata e tá a fim de trepar com ela, e nem assim tu abre uma exceção, se mostra mais gentil? A resposta foi negativa. Duas amigas ao lado concordavam piamente, justificaram que as mulheres exigiram direitos iguais então deveriam arcar, com um sorriso estampado na cara, com os deveres também. Mas, onde uma conta de bar/restaurante/motel é um dever? É uma opção, não é? Especialmente por que se trata de um lazer ou um cortejo.
Eu entendo que as mulheres cansaram de ter suas contas pagas e ter de agir como aquisição do homem. Como opção, não é agradável. E hoje nós temos essa opção. E que bom! Eu sou independente e me orgulho disso, mas isso não diminui o papel do homem na hora do lazer: ele paga a conta sim! Ou não me come. – ao afirmar isso fui alertada de que agia como uma prostituta, pelo rapaz e pelas moças. Então retruquei: sua mãe, uma dona de casa que se dedicou apenas a família, era uma PROSTITUTA do seu pai? Ninguém concordou e se desdobraram em explicações que só esbarravam em clichés “eram outros tempos e minha mãe não foi prostituta, mais respeito com a MINHA família!”. Prostitutas também são mulheres, mas merecem menos respeito do que as outras? Sim, unanimemente. Essas, apesar de pagarem suas contas, de não venderem animais de estimação que nada recebem por isso, exceto um destino incerto, não merecem qualquer respeito mesmo quando seus serviços são requisitados. E no caso do jovem em questão, ele já saiu com prostitutas algumas vezes, só de “zueira” com os amigos.  Eu parei de argumentar, optei por beber e falar de amenidades.

Esse assunto sempre me intriga por que eu conheci muitas mulheres independentes, esclarecidas e inteligentes dividindo a conta com alguém que as chamaria de vagabunda interesseira, e capaz que as próprias concordariam com essa conduta bárbara. Eu me choco quando uma mulher diz que não pode  aceitar que um homem pague a totalidade da conta do restaurante, que lhe abra a porta do carro, e como eu já ouvi “não sou aleijada e que me abram a porta é uma verdadeira ofensa!”, ou quando dizem que flores ficam bem em cemitério. É como se odiassem o fato de serem tratadas com delicadeza, de serem mimadas e cortejadas com elegância, por que isso lhes soa aos ouvidos como as chaves de uma prisão da qual a pouco se libertaram. Os homens estão completamente perdidos, os bons eu digo, por que os maus souberam aproveitar bem as conquistas do feminismo. Veja bem, não estou falando mal do feminismo, eu nunca discuto religião! Mas, me sinto insultada na minha inteligência quando ouço um cara me dizer: direitos iguais, deveres iguais. E me sinto ultrajada quando ouço mulheres corroborando essa máxima da idiotice humana. Eu não sou igual aos homens, e não quero ser! Eu tenho uma BOCETA, duas TETAS e gasto mais do que um gel de barbear pra ficar à altura do que vocês HOMENS chamam de “gata, gostosa, comível”, e embora isso se encaixe na tal “Ditadura da Beleza”, eu diria que prefiro sorrir quando olho no espelho a pensar na roupa que vou usar pra parecer menos pior do que eu me sinto. Sou vaidosa, e isso não me diminui como mulher, não traduz minhas falhas ou conhecimentos.  E isso é o que toda mulher deveria levar em conta antes de concordar com algo que só tem vantagem pro homem desprovido de educação e bom senso.

Oras meninas, vamos contabilizar, nós gastamos muito pra ficar bonitas/apresentáveis diariamente. E isso tem que ser somado no lazer desses mocinhos que só querem se dar bem a baixo custo. Eles não usam salto alto, maquiagem, salão de beleza, depilação, roupas para o dia e roupas para a noite, lingeries especiais, unhas vermelhas... Mas, reparam na falta disso, nunca no trabalho que deu pra chegar impecável aquele encontro que ele marcou, mas que tu vai dividir a conta e ainda fazer o boquete do século antes de fazê-lo gozar não sei quantas vezes, e depois nem vai topar um cineminha quando tu tá carente na TPM, ou no dia dos namorados que você se sente ainda mais sozinha e só quer uma companhia  pra passar o tempo, e por que não ELE? Por que ele já arranjou outra pra dividir a conta e fazer o mesmo serviço. Tudo bem que você também se divertiu na foda, mas o saldo final não ficou favorável pra você, nem justamente dividido. Pense nisso antes de dividir a conta com o próximo PAU que quiser entrar em você.  Valorize o quanto você gasta antes de chegar à mesa deles.

*Adendo: estou falando abertamente de sexo sem compromisso, por tanto não vale argumentar que entre casais...blá blá blá, entre casais há um acordo e um conhecimento mais profundo do que um simples CORTEJO.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Ah, os roqueiros...


Roqueiro é um bicho burro, do tipo sem salvação mesmo. Digo bicho por que também é animal, alguns até afirmam que são racionais, vá entender... Mas, é assim, eu tenho tatuagem, mas assim como o Marcos Feliciano não representa as pessoas descoladas do feice, esses desenhos na minha pele também não dizem nada sobre mim, mas especialmente não dizem ABSOLUTAMENTE NADA sobre meu "estilo musical". E estilo musical é algo que eu não tenho uma vez que não sou música, sou apreciadora apenas.

Estou na fila do mercado e tem uns caras tatuadérrimos atrás de mim, desses com frases em inglês no antebraço, várias caveiras por todos os lados e palavras originais nos dedos como fuck you, rock e um que eu li: vida loka (aham...). Os uniformes eram os de praxe, camiseta dos Ramones, Ozzy e sei lá o que mais. Eu estou apenas esperando a minha vez para ir embora depois de uma corridinha básica, mas aí vem a derradeira:

- Ô, massa as 'tatu' da mina, heim? -um me notou, ai...
- E aí, tu toca? - o outro quis saber.
- Não. - respondi sem deixar parecer que eu queria fazer novos amigos.
- Mas tu é roqueira, né. Tu curte Black Label Society?
- Não conheço. - menti. É só a banda que eu mais odeio. Pra mim representa música de macho com muito pelo no peito. Tô fora.
- Ah, não conhece? Pô gata, que decepção... -lamentou um.
- Aió, achei que a gata era roqueira. Mas e aí, essas 'tatus' são de verdade? - todos riram. Pensei em não dizer nada, mas disse:

- Roqueiros são vocês. E mina é uma nascente de água, sabem disso?

Eles não entenderam, só ficaram rindo.

Fui embora pensando, rock é o tipo de coisa que eu escuto em casa, baixinho, que é pro vizinho boçal, pessoa por quem não tenho nada além de desprezo e que deu o nome do cachorro de Ozzy, não achar que eu sou "legal"como ele. Até por que se eu for falar do meu apreço por tango polonês antigo ele vai rir, como um verdadeiro roqueiro: ri de tudo que não entende.

*PS: Antes de achar que é preconceito, saiba que você está certo. Não conheço roqueiro que conheça e aprecie música, só o contrário.

Maternidade ou premiação?


Na atual conjuntura de valores familiares eu me pergunto qual seria o meu comportamento como mãe sempre que vejo um troféu, ops! filho, sendo exibido como mercadoria nesta vitrine moderna chamada rede social. Não consigo identificar onde termina o amor e começa a promoção, tipo "comprem, oferta imbatível!", o fato é que essa demonstração exagerada de afeto, orgulho ou autofirmação de uma condição imutável, às vezes me soa um tanto artificial. Eu quero muito ser mãe e não vejo a hora disso acontecer, também tenho certeza de que essa seria a maior das minhas realizações, mas seria isso razão suficiente para expor uma criancinha diariamente como se fosse a coisa mais glamurosa do mundo?

O que eu pude perceber é que de uns tempos pra cá as mulheres estão tratando a maternidade mais como um premio de quem chegou na frente do que como um acontecimento natural da nossa espécie. Será que as nossas mães tinham essa mesma postura?

Estou certa de que a maioria das novas mamães dirão que enxergam seus filhos como um presente de deus, shiva ou Hollywood, e filosoficamente falando isso parece lindo, mas não explica esse exibicionismo descompassado. Talvez eu não entenda absolutamente nada do que é ser mãe, e do porque dessa necessidade. Ou talvez meus conceitos sejam anacrônicos demais pra essa nova realidade.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A teoria de um problema





Não costumo reclamar dos meus problemas, raramente o faço. E tenho várias teorias para defender meu argumento, a primeira delas é de que ao reclamar de um problema eu estou apenas revivendo-o sem que isso culmine numa solução adequada. Logo, o tempo que eu poderia usar para tirar uma folga do problema, e trocar por umas risadas bobas, eu acabei empregando mal e voltei pra casa com o que já havia saído: um problema.  Essa é apenas uma das razões pela qual eu acabo passando uma imagem superficial de pessoa que anda de braços dados com a vida e todo vento sopra a seu favor. Mas não é assim que acontece. Eu apenas prefiro utilizar minhas amizades para atividades mais prazerosas. E rir também faz bem, mais até do que reclamar! Mas nisso eu acabo sempre no papel da psicóloga, e sinceramente isso não me incomoda. Eu adoro ouvir histórias, e confesso certo fetiche pelo drama.

Porém, não foram poucas as vezes que fui mal interpretada por manter essa postura. E isso, em vez de me fazer sair reclamando deliberadamente como seria o esperado, causa o efeito exatamente oposto: eu me fecho ainda mais por acreditar que não vale a pena fazer parte desse grupo egoísta que acredita ter mais direitos do que eu a se queixar das suas mazelas pelo simples fato de que se queixou primeiro.
 Mas o óbvio disso é que as pessoas reclamam por que gostam de reclamar, é como um esporte, um hobby, sabe? Se não tem isso, pouco ou nada lhes resta. E conheço muitas pessoas que eu apostaria um dedo que se uma grande solução aparecesse em suas famigeradas existências, esses próprios seres sabotariam o benfeitor só pelo prazer de manter seus problemas intactos e prontos para uso.

Porém, um fato bastante curioso chama a minha atenção nesses queixões de plantão: essas mesmas pessoas que tanto reclamam do dinheiro que lhes falta, da viagem que não puderam fazer, do caso que deu errado, do namoro que é uma merda, mas preferem manter, dos lugares que detestam, mas não deixam de frequentar, enfim, essas pessoas que só reclamam, mas não se suicidam, por que vamos combinar, Kurt Cobain achou tudo uma merda e se mandou desta para melhor, essas mesmas criaturas têm uma importante mensagem para passar ao mundo que tanto lhes empresta ouvidos, paciência e tempo. Tente falar dos teus problemas para um Zé-Enxaqueca da vida e a primeira coisa que tu vai ouvir será tão suave quanto uma pedrada na cabeça:
- Eu já tenho problemas demais, não estou a fim de ouvir os problemas dos outros.

Entendeu?